Representação, afeto e perda: uma leitura psicanalítica do luto nas redes sociais
As redes sociais passaram a ocupar um lugar significativo no processo de enfrentamento do luto, operando tanto como apoio quanto como obstáculo à elaboração psíquica da perda. Do ponto de vista psicanalítico, o luto exige a articulação entre representação e afeto, permitindo que a ausência do objeto seja simbolizada.
Freud descreveu o trabalho de luto como um processo lento, no qual o sujeito retorna varias vezes às lembranças ligadas ao que foi perdido, até que o investimento libidinal possa ser gradualmente deslocado. Nesse sentido, as redes sociais funcionam como uma vitrine permanente de imagens e registros do sujeito que partiu, que podem favorecer a elaboração quando auxiliam a lembrar e a narrar a perda, mas também podem dificultá-la quando mantêm o sujeito preso a uma repetição imagética que reativa o afeto sem mediação simbólica, sem elaboração.
A partir de Lacan, pode-se pensar que o algoritmo opera no registro do imaginário, insistindo em imagens que desconhecem a inscrição da morte no simbólico. O sujeito, ao contrário, sabe da perda, e é justamente essa dissonância que pode produzir sofrimento e angustia. Quando a imagem retorna sem palavra, sem contexto e sem escuta, ela toca o Real da perda, produzindo um excesso de afeto que não encontra representação.
Assim, as redes sociais podem atrapalhar o luto ao encurtar o tempo da elaboração, exigir respostas rápidas (como “seguir em frente”) ou impor uma repetição automática que não respeita o ritmo singular do sujeito. O risco é que o luto fique preso à imagem, sem passagem pela simbolização.
Por outro lado, se pensadas como espaço de endereçamento, as redes também podem favorecer a elaboração. Podemos dizer que a elaboração do luto depende de uma função continente (Bion), capaz de transformar afetos brutos em elementos pensáveis. Quando o sujeito encontra, mesmo virtualmente, um outro que escuta, nomeia e sustenta a dor, as redes podem servir como apoio transitório para o trabalho psíquico.
A clínica psicanalítica, nesse cenário, não se opõe às redes sociais, mas interroga seus efeitos: em que momentos elas ajudam a ligar afeto e representação, e em quais produzem excesso, repetição e engessamentos? O luto não se resolve pela exclusão das imagens, mas pela possibilidade de elaboração, que só ocorre quando a perda encontra um lugar na palavra e no laço com o outro.