Quando o quarto não muda: objetos, apego e os impasses do trabalho de luto

Quando o quarto não muda: objetos, apego e os impasses do trabalho de luto

Na Psicanalise, a manutenção dos quartos, das roupas e dos objetos de quem partiu pode ser compreendida como uma fixação do investimento libidinal no objeto perdido, quando a perda ainda não pôde ser simbolizada. Esses objetos deixam de ser apenas lembranças e passam a operar como suportes ou bengalas da presença, funcionando como uma tentativa de negar, suspender ou adiar a inscrição da morte no psiquismo. 

Ao preservar o espaço tal como era, o sujeito sustenta uma relação que não admite transformação, permanecendo capturado em uma repetição que protege do vazio, mas que também impede o avanço do trabalho de luto descrito por Freud (que exige do sujeito o desinvestimento do objeto ausente).Esse apego torna-se nocivo quando os objetos assumem a função de tamponar a falta, ocupando o lugar que deveria ser atravessado pela elaboração psíquica, pela palavra.

O que se observa não é apego excessivo, mas a impossibilidade de ligar afeto e representação de forma simbólica. A dor permanece encapsulada nos objetos, sem transformação e sem trabalho. A escuta clínica oferece uma função de contorno para esse sofrimento. Sustentando a palavra e o tempo do sujeito, a clínica possibilita que o vínculo com o morto seja reinscrito no campo da memória e da linguagem, permitindo que a perda deixe de ser vivida como presença congelada e possa, gradualmente, ser elaborada como ausência simbolizada. Aqui, a construção de sentido é um caminho possível.